
Cultura & Liturgia
APRESENTAÇÃO
Ocidente & Liturgia
O Ocidente cultural não se entende sem o culto católico, sem a liturgia católica. Hoje em dia, crentes ou não crentes, todos sabemos valorizar uma basílica ou uma catedral. Todos conhecemos e apreciamos o Requiem de Mozart. Vibramos com as pinturas de Michelangelo na capela Sistina. Mas desconhecemos ou subvalorizamos todo o teatro litúrgico que deu origem e que explica na sua profundidade estas e tantas outras obras de arte.
A Liturgia antiga, também pela sua longa tradição, era obrigada a dar prioridade à «mistagogia» (do grego myst – mistério; e agagein – guiar, conduzir). Isto é, teve de criar uma pedagogia teórica e prática, simbólica e artística, que introduzisse o crente nos mistérios de Cristo. Esta iniciação tão vasta e enriquecida com tantos séculos de experiência também elevava o crente culturalmente e influenciava directa ou indirectamente as suas produções culturais. Charlene Spretnak, num livro recente, resumiu bem esta relação: «Estes artistas cresceram num mundo pleno de graça divina, apesar de serem avisados repetidamente contra os perigos do pecado. Além disso, a cultura espiritual em que estas crianças sensíveis e com inclinação estética foram educadas era centrada numa inebriante Gesamtkunstwerk [obra de arte total] que era a Missa Católica tradicional, que incorporava artes visuais, poéticas, musicais, rituais e aromáticas. A missa em si fazia parte de uma grande Gestalt, toda uma experiência imersiva de viver e ser expressão de um vasto Gesamtkunstwerk de profundidade e beleza espiritual. Com efeito, essa formação espiritual esteticamente rica na infância proporcionou um sistema de inspiração para as artes. (The Spiritual Dynamic in Modern Art: Art History Reconsidered, 1800 to the Present)
Partindo deste desconhecimento, muitos cristãos do ocidente olham quase com um sentimento de inferioridade o fausto das liturgias orientais. E não são poucos aqueles que ignoram a possibilidade aberta pela Igreja de assistirem ao rito romano na sua forma antiga, agora denominada forma extraordinária (cfr. Summorum pontificum).
Neste site queremos, contudo, descer ainda mais fundo e abordar o tema do sagrado enquanto tal, estritamente ligado ao culto. Talvez assim se compreenda melhor a famosa advertência de Heidegger: «Porventura o elemento mais característico da nossa época seja a sua obturação para a dimensão do sagrado (das Heil). Talvez seja esta a sua única desventura (Unheil). (Carta sobre o Humanismo)
Cultura & Liturgia é uma iniciativa da Casa da Divina Comédia em parceria com o liturgista Padre Fernando António.
NOTÍCIAS

CULTO & BELEZA
PERSPECTIVAS & TESTEMUNHOS
CULTO & CULTURA
FORMA EXTRAORDINÁRIA
Se Aristóteles vinculou as grandes produções culturais ao ócio, Platão, nas Leis (653d), tinha vinculado o ócio ao culto e, entre ambos, às grandes invenções culturais. Nesse sentido, Joseph Pieper concluiu que a «cultura vive do culto» (O Ócio e a Vida Intelectual).
A função do culto, como já podemos entrever, exerceu um papel determinante na própria cultura ocidental enquanto tal. A nossa própria língua o sugere: cultivar, culto, cultura, têm a mesma origem. Entender essa relação fundante passa por compreender que «nós não somos nem podemos ser “gregos” e “judeus” senão porque em primeiro lugar somos “romanos” (Rémi Brague, Europe, la voie romaine). Neste sentido, é absolutamente necessário perceber o que é o Rito Romano na sua forma antiga.
Com efeito, a vinculação que o facere (fazer) romano estabeleceu entre o acto de cultivo e o acto de culto foi decisivo. Assim como no fazer agrícola apenas se dá condições para a natureza se desenvolver mais plenamente, também o acto de culto apenas disponibiliza as condições para que a natureza dos deuses se manifeste mais plenamente. Que este facere particular tenha sido estendido, mais tarde, como metáfora e orientação, a todo quefazer civilizacional, ou seja, à cultura, foi um dos grandes legados de Roma.
Finalmente, tenhamos em conta que o acto de culto que acabou por se impor e estender por todo o Ocidente foi o rito católico romano. Foi na sua plena vigência que se estendeu a metáfora do culto à cultura. Portanto, desconhecer este rito na sua profundidade é correr o risco de não entender o que chamamos Europa.



